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Friday, September 19, 2014
Thursday, September 18, 2014
Muitas coisas
Tenho tido muitas coisas
Inclusive o mundo inteiro
No entanto as palavras me traem
Os sentimentos me esmagam
E o suor me condena
Estou todo espalhado
Entre aquilo que mais desejava
E aquilo que mais repelia
Estou por toda parte
E não entendo esse monte de cacos
Tenho casa mas não tenho canto
Tenho grito mas não tenho alma
Espero o sol como o vampiro espera a morte
Os raios do sol - simples e cotidianos
Dilacerando a pele
Expondo a carne
Deformando
Tenho tido muitas coisas
E por acreditar nelas me perdi
O reencontro talvez já não seja mais um lugar
E a resposta talvez não esteja mais nessa vida
Sinto muito
Não entendo
E não pretendo pertencer a ninguém!
(151210)
Wednesday, September 17, 2014
Monday, September 15, 2014
O Menino
Um dia tentando encontrar O Caminho Certo, O Menino se perdeu. Não estava encantado com O Caminho Novo - só estava com medo de errar o caminho.
E errou!!
Por acaso decidiu não parar - tinha medo, mas também esperança de encontrar algo familiar que o levasse de volta ao Caminho Certo. Mas não, Ele não viu nada que pudesse lhe servir de pista. É verdade, Ele não se lembrou de jogar migalhas no chão, mas antes de se lamentar por não tê-lo feito, se deu conta que se tivesse jogado, as migalhas já teriam sido devoradas pelos Famintos que ultrapassou pelo caminho!
Em sua história, nem havia passarinhos!
E a noite caiu! E O Menino estava sozinho. E naquela noite Ele se escondeu. Mas longe do mundo, o qual conhecia, não conseguiu esconder de si mesmo As Feridas do caminho.
E então O Menino chorou! Chorou muito, muito, mas bem baixinho pra não romper a escuridão da noite que agora era a única proteção que tinha - e chorar baixinho quando se tem muito a chorar, faz doer muito, muito mais! No cantinho em que se encolhia, havia um pedaço de espelho quebrado que O Menino segurou pra lhe fazer companhia.
E veio o cansaço, e O Menino dormiu!
Na manhã seguinte, a luz do sol levou embora o medo da escuridão - Ele não temia o escuro pelo que não podia ver, mas sim pelo mal que as outras pessoas fingem não ver na ausência da luz! Os Famintos do caminho, eram famintos por que estavam parados e O Menino não queria ser um faminto então, se pôs a andar. Na luz do dia, encontrou o olhar das pessoas, e aprendeu que o que as pessoas são - assim como o que elas têm - é mais perceptível à luz do dia, uma vez que de noite são todos Omissos, por mais que varie a intensidade e crueldade de cada omissão. Ele aprendeu a olhar os olhos das pessoas, e neles encontrou ajuda, desprezo, riso, humilhação, violência, amor, dúvida...
...e O Menino perdeu o medo da noite!
Sóis e luas adiante, O Caminho já era então o desespero da caminhada. Assim como o Choro da primeira escuridão, um desespero silencioso - que destrói muito mais, mas incomoda muito menos! Além dos Famintos e dos Omissos, O Menino conseguia agora enxergar também Os Suicidas e Os Gigolôs. Os Suicidas como os Famintos haviam decidido parar, cada um por seus próprios motivos: pelo Desprezo, ou pelo Riso, Humilhação, Violência, Amor, Dúvida... No entanto não desejavam nem mais as migalhas! O Menino, não queria parar... ...por isso não queria ser um suicida. O Gigolô nunca parava, no entanto, só andava em círculos se alimentando da miséria de suicidas e famintos,. Alimentam essa miséria para o entretenimento dos omissos.
O Menino não queria essa miséria, por isso não queria ser um gigolô. Por isso não queria andar em círculos. Por isso escolheu O Tempo como único protetor e aceitou pagar o preço do esquecimento.
...e O Tempo passou!
...e O Menino se esqueceu!!
Seus olhos já não viam os novos caminhos como desconhecidos. E então O Menino não estava mais perdido. Estava sozinho, mas não mais perdido. E pela primeira vez sorriu pra Solidão que o acompanhava com lealdade desde muito antes de se perder. E nem se deu conta quando a Esperança de encontrar o Caminho Certo se despediu e foi embora.
Ele não mais escondia as feridas do caminho - elas se tornaram uma armadura, enquanto o Desprezo, o Riso, Humilhação, a Violência, o Amor e a Dúvida (sobretudo a Dúvida!) se tornaram um leve sorriso, e a vontade de buscar o passo seguinte - apenas o passo seguinte, e o seguinte nascer do Sol.
...e O Menino perdeu o medo do dia!!
...e andar já era então O Caminho!
Foi quando então, no caminho de uma tarde de um céu cinzento qualquer, os olhos do Menino encontraram lembranças, curvas, esquinas... encontraram imagens de um tempo em que não havia uma caminhada, noites escuras ou dúvidas (sobretudo dúvidas!). Imagens de um mundo certo, a casa certa, o Caminho Certo!
Ele não pode conter a explosão de alegria de re-encontrar sentimentos tão bons e tão distantes - há tempos já guardados no bolso das impossibilidades.
Com os olhos marejados levantou com as mãos a bagagem que arrastava já por tanto tempo, e apressou o passo para encontrar a casa e enfim, trilhar O Caminho Certo.
Mas tão intensa quanto a explosão da alegria de reconhecer aquelas imagens, foi intensa a decepção em perceber que ninguém o reconhecia. A medida que entrava no Caminho Certo e sorria pras pessoas, percebeu que a casa era muito, muito menor do que lhe contava seu coração, e nos olhos das pessoas do Caminho Certo, ele não viu nada, nada além de Omissos, Famintos, Suicidas e Gigolôs.
Não havia nada que parecesse mais certo. Nada que fosse mais sóbrio. Nada que valia a pena ter siso sonhado.
Como poderia a dor da bagagem que havia em seus ombros ser a mesma paisagem do desejo mais profundo que guardava em seus sonhos?
Foi quando ele mesmo, no reflexo da janela de uma das casas conhecidas, não foi capaz de se reconhecer.
Ele não era mais um menino.
E da confusão de seus sentimentos, lhe restaram apenas lágrimas das quais o sorriso amargo não conseguiu se livrar, e dali se apressou a sair e andando sem destino passaram-se horas e horas e horas...
Ao cair da noite, tamanha era sua dor, que ele fugiu do caminho e se escondeu em um cantinho silencioso. E nesse cantinho onde se encolhia, encontrou um pedaço de espelho quebrado.
E nesse espelho ele viu, que depois de tantos caminhos violentos, feridas e armaduras, histórias e sentimentos, ele não era mais do que apenas um menino.
Nunca mais O Menino foi visto.
Nunca mais se ouviu histórias ao seu respeito.
Sunday, September 14, 2014
A fadinha do dente e a menininha
Este vídeo foi publicado em 2011 e a idéia era apenas juntar imagens pra celebrar uma ocasião especial. No entanto, no meio do caminho, surgiu uma história, que virou um roteiro extremamente poético e bonito.
Esse é o meu vídeo mais visto - e o único que a cada dia continua sendo visto por aí a fora. Ele ainda me ensina muito - não sei se é a fada ou a menininha.
Friday, September 12, 2014
Thursday, September 11, 2014
Sentimentos desconexos
Tem sido difícil... ...viver!
Mas o problema não é a vida: sou eu.
Eu sei disso, e não é fácil viver com isso... ...e não é fácil saber disso.
Não é fácil saber o que fazer - ter certeza do que fazer - e saber que o mundo é o espaço de uma pessoa só - e que esse mundo não muda... ... não muda!
Conheci alguém. Um outro alguém que já foi embora.
Um outro mundo de coisas lindas
Lindas paisagens compostas pela desilusão e o cansaço e a solidão.
O desespero é a queda
A redenção é a morte
As lágrimas, a saudade e a solidão não morrem
Elas estarão sempre por perto!
A felicidade é uma breve paisagem à esquerda da estrada
É simples, clara e gentil
Mora no universo do sorriso de uma criança!
Sou hoje uma criança sem sorriso
Da janela dos olhos eu vejo o sol entre nuvens carregadas de medo, dores mortas e pecados
Da janela da vida vejo um grande espaço vazio, onde cair e voar são apenas pontos de vista.
Hoje o ar está calmo
E eu só não queria estar sozinho.
(14 de dezembro de 2010)
(11 de setembro de 2014)
(11 de setembro de 2014)
Wednesday, September 10, 2014
Tuesday, September 9, 2014
Monday, September 8, 2014
Histórias de Amor
Histórias de amor sempre têm um final feliz
Porque o amor
é aquilo que não tem fim
não tem limites
nem tampouco explicação!
Acaba a história
Mas nunca o amor!
E o feliz dessa história que termina
É a história que fica:
Uma história de amor
Viva em cores e formatos
O final pode trazer dor
mas uma dor que não é maior que a história
Pode trazer tristeza
mas uma tristeza que não é maior que o amor
porque se forem maiores
não foi amor o que se viveu
- foi alguma outra confusão do espírito humano, mas não amor.
Pois o amor não é pequeno
Assim como não é a história.
O final pode ser breve e pontual
Não a história
Nem o amor
E por isso viver uma história de amor
Nunca é triste
Nunca é vago
Nunca é pouco
Onde existiu uma história de amor
Existirá sempre a lembrança
- não a lembrança do final
mas a lembrança da história
e a intensidade do amor vivido
- não o amor que foi levado
mas o amor que vive dentro de você,
e dentro de você sempre estará.
E por isso lhes digo:
Histórias de amor sempre têm um final feliz
Porque por mais que tenha havido um final
O que se viveu foi uma história de amor
E o amor é aquilo que não tem fim!
Thursday, September 4, 2014
A Raiva e o Jovem Coração
A raiva é o desapego momentâneo do coração daquilo que o alimenta e lhe dá vida.
Um garoto, de coração ainda muito jovem e cheio de esperança me pergunta:
" - Por que o coração faz isso?
Por que quer se afastar do que lhe é mais caro?"
Eu não sei a resposta! Mas sei o quão perigoso é deixar um coração jovem sem certeza alguma pra refletir. Então respondo:
" - Os corações humanos são, definitivamente cegos.
Quando um coração é amado, cegamente tende a amar.
Quando um coração é machucado, cegamente quer machucar!
E um coração que é amado e por amor se machuca, cegamente quer maltratar e machucar a si mesmo.
Explode...
...implode...
Imaginando se libertar, joga pra longe aquilo que o faz ser o que é!
Momentaneamente se perde!!
Quando um coração é amado, cegamente tende a amar.
Quando um coração é machucado, cegamente quer machucar!
E um coração que é amado e por amor se machuca, cegamente quer maltratar e machucar a si mesmo.
Explode...
...implode...
Imaginando se libertar, joga pra longe aquilo que o faz ser o que é!
Momentaneamente se perde!!
É altruísta pois imagina que destruindo a si mesmo acabará com o sofrimento do mundo inteiro.
É egoísta pois no intuito de se destruir, destrói todas as coisas que residem ao seu lado.
E quando os destroços são muitos, e se continua perdido por muito tempo, a raiva pode se tornar mágoa, que se torna desencanto, que se torna veneno, e que finalmente passa a ser a única coisa que se tem a oferecer.
E o que sobra é silêncio, às vezes desespero, às vezes só o vazio...
...não me lembro de sobrarem coisas boas! Não me lembro!"
...não me lembro de sobrarem coisas boas! Não me lembro!"
O jovem me olha com toda sua esperança e alegria, como quem consegue no meio da tempestade o melhor abrigo, e diz:
" - É preciso que as pessoas saibam disso! É preciso que saibam!"
Me detenho alguns segundos em um suspiro discreto enquanto me passa pela cabeça que sim, as pessoas já sabem. Mas de nada vale saber quando o saber está na mente, e a raiva no coração. Quando o saber são palavras e o coração, sentimentos.
Penso mas nada digo. Apenas repito:
" - Sim, é preciso que saibam!"
Tuesday, September 2, 2014
O Grito
O Grito partiu das trevas
das profundezas de um coração em chamas
doloroso, violento, cego...
Era dor - passado, presente... ...futuro
Era Lágrima
Insano, insensato, incoerente, inexato, impuro
Era Humano!
Quem ousaria gritá-lo?
Quem ousaria enfrentá-lo?
Ou ainda mais perigoso:
Quem ousaria ouvi-lo?
Quem ousaria queimar as próprias crenças?
...queimar os próprios preconceitos?
...aceitar as próprias vergonhas?
...encarar seus próprios descaminhos?
O Grito era o limite entre o desejo e a covardia
O Desejo de quem se despe pra se vestir da Liberdade de ser
E a covardia de quem se veste pra se proteger da intensidade do golpe
seja a bomba que explode de dentro
ou o míssil que atinge vindo de fora
O Grito vindo das trevas
Me mostrou a casa devastada
O amor perdido
O futuro em chamas
A indiferença partilhada
As memórias destruídas
E no 'silêncio' da solidão desse grito singular e anônimo
- na dissonância, meu homônimo e na discordância, meu assassino -
Veio a mim a certeza de estar perdido!
A certeza incandescente e impiedosa de estar perdido!!
E o Grito então se vai
Enquanto a intensidade de seu estrago só aumenta
E eu,
Agonizante, revolvendo cacos
Agonizante, revolvendo cacos
Reinventando sílabas
Espalhando lágrimas e sentimentos pelo rosto frágil
Ouvi uma voz de passos firmes e rápidos passar pelo meu desalento dizendo:
"Estar perdido é a única forma de se saber, de fato, onde se está!!"
E o Grito?
O Grito não dá explicações nem tampouco pede desculpas
O Grito não dá explicações nem tampouco pede desculpas
E em verdade nem se importa pra onde está indo:
Ele vai!!
Simplesmente vai!!!
(para Lívia)
Sunday, August 31, 2014
Eu
(Clique na imagem para ampliar)
"Eu não sou o que você vê. Eu vivo do outro lado!"
(Montréal - abril de 2013)
Universo
(Clique na imagem para ampliar)
"Veja o universo nos olhos de outra pessoa"
(Montréal - Setembro de 2012)
Escuridão
(Clique na imagem para ampliar)
"Quando a escuridão é o melhor lugar para se ver a luz"
(Montréal - abril de 2013)
Wednesday, August 27, 2014
O Direito de Fazê-lo
...e ele tinha o direito de fazê-lo.
E quando se tem o direito
não é necessário o olhar
não é necessário saber
não são necessários
a compaixão
o contexto
a história
o sentido
o sentimento
a escolha
a experiência...
Tem-se o direito de se fazer, e pronto!
mesmo que isso machuque
mesmo que estrague
mesmo que destrua
mesmo que separe
ofenda
humilhe
deprima
derrube...
Ele tem o direito e só isso importa!
O resto é menor
O resto é pequeno
é não ter razão
é não ter inteligência
é não ter nenhum sentido.
O resto é digno de piada
digno do enxovalho
digno de condenação
de desprezo
de pena
de execração pública!!!
Quando se tem o direito
pouco importa a verdade
pouco importa o respeito
o carinho
o afeto
o cuidado
o sentimento
ou as lágrimas
porque não se trata de uma questão de humanidade
se trata de uma questão de direito
E quando se tem o direito
não é preciso possuir mais nada!
Nada!!
Nada!!!!!
E quando se tem o direito
não é necessário o olhar
não é necessário saber
não são necessários
a compaixão
o contexto
a história
o sentido
o sentimento
a escolha
a experiência...
Tem-se o direito de se fazer, e pronto!
mesmo que isso machuque
mesmo que estrague
mesmo que destrua
mesmo que separe
ofenda
humilhe
deprima
derrube...
Ele tem o direito e só isso importa!
O resto é menor
O resto é pequeno
é não ter razão
é não ter inteligência
é não ter nenhum sentido.
O resto é digno de piada
digno do enxovalho
digno de condenação
de desprezo
de pena
de execração pública!!!
Quando se tem o direito
pouco importa a verdade
pouco importa o respeito
o carinho
o afeto
o cuidado
o sentimento
ou as lágrimas
porque não se trata de uma questão de humanidade
se trata de uma questão de direito
E quando se tem o direito
não é preciso possuir mais nada!
Nada!!
Nada!!!!!
Friday, August 22, 2014
Epitáfio
Era uma tarde calma!
As confusões de minha cabeça me afastavam mais e mais das pessoas. Decidi andar sozinho depois do almoço. Por fim sentei-me no banco da praça. Todos os dias pela manhã e no final da tarde passava por ali no caminho entre minha casa e o trabalho, mas nunca havia parado.
Fiquei ali olhando as pessoas sem pensar em nada. Apenas olhando, quando uma das sombras que acompanhava com minha mente vazia tomou forma. Era uma senhora, elegantemente vestida para aquela tarde acinzentada e fria. Ela tinha algumas flores nas mãos - rosas vermelhas e brancas. Ao observá-la por alguns minutos, entendi que, com muita simpatia e cuidado, as flores eram oferecidas a pessoas que a velhinha escolhia ao acaso enquanto caminhava lentamente. A simpatia, o sorriso e a gentileza daquele gesto me ofendiam - me agrediam inexplicavelmente. Dirigi meus olhos pra outro lado e sem grandes raciocínios filosóficos minha cabeça estava vazia novamente, aproveitando os poucos minutos que me restavam antes de voltar ao trabalho.
Esse estado de letargia me tira a noção de tempo e espaço, de modo que só percebi a voz que me chamava quando não havia mais chance de me esquivar.
" - Moço, posso lhe oferecer uma rosa?"
Para ganhar tempo e ajustar minhas reações, sorri levemente e me desculpei, como se não tivesse escutado - uma reação calculada que utilizo há anos com frequência, simplesmente pra ganhar tempo de resposta em situações inesperadas. Então ela repetiu:
" - Posso lhe oferecer uma flor?"
Nos minutos anteriores quando a observava, notei que as pessoas reagiam de formas variadas, desde a surpresa agradável até uma indiferença quase contrangedora. Apesar de minha aversão às pessoas, sou conhecido por ser cordial e educado, e não quis parecer indiferente, por mais que aquele ato fosse, não só indiferente, mas incômodo.
" - Muito obrigado. A senhora é muito gentil" disse eu com um sorriso. As pessoas também dizem que tenho um sorriso muito bonito e fácil. Aprendi a usá-lo convenientemente - não sei ao certo se por conveniência ou vaidade. Não importa!
Ela agradeceu enquanto retomava lentamente sua caminhada, quando eu - talvez por vaidade, talvez pela culpa de receber tanta gentileza sem nada oferecer, perguntei:
" - Existe um por quê dessas rosas? Um significado?"
Ela respondeu vagarosamente: " - Apenas um pedido, uma lembrança."
Sorri e retruquei em tom de admiração: "Que bonito! A senhora faz isso há muito tempo?"
E ela então, naturalmente, deu uma resposta que mudou completamente os rumos daquela tarde vazia.
Ela respondeu: " - Há quinze anos." - e após uma pausa reflexiva de alguns segundos completou, sorrindo suavemente: " - quinze anos, quatro meses e vinte e três dias".
A primeira coisa que me passou pela cabeça foi arrependimento por ter iniciado aquele diálogo. Eu não tinha gestos, sorrisos ou expressões ensaiadas pra essa situação. Então apenas repeti balançando a cabeça positivamente, imagino eu, com cara de idiota: " - Que bonito!"
E então ela tomou a frente do diálogo, dizendo: " - A vida é engraçada: às vezes ela nos dá coisas pra que a gente aprenda; às vezes nós repetimos a mesma coisa pra tentar aprender!" E me perguntou: " - Posso lhe mostrar uma coisa?" Após a pergunta, assumiu uma imobilidade assustadora esperando uma resposta. Eu queria dizer não, mas não havia a menor possibilidade de fazê-lo. Então, recobrei o velho sorriso sutil meticulosamente ensaiado pra situações constrangedoras e disse: " - Claro."
Ela pôs as poucas rosas que lhe restavam sobre o banco e sentou-se. Abriu a bolsa. Abriu um pequeno bolso na lateral interna, e tirou um plástico como o que se usa pra guardar documentos. De dentro desse plástico tirou um papel e começou a desdobrá-lo enquanto falava comigo. Nesse momento, meu pânico não estava mais ali. Ela disse: " - Eu perdi uma pessoa muito querida..., na verdade, todos nós perdemos pessoas queridas - faz parte da vida. Mas essa pessoa, meu marido, se foi numa situação muito diferente."
Ela continuou: " - Hoje seria o nosso aniversário de casamento - 47 anos. Mas ele se foi... e me deixou isso. Pode ler se quiser. Eu ainda tenho essa máquina."
Peguei aquele papel em pânico novamente. Eu já conhecia aquele tipo de situação. Acontece quando você vai se deparar com uma lição de vida que te quebra ao meio e te mostra coisas que você não quer ver. Às vezes, coisas que você não está preparado pra ver. Naquele segundo em que trazia a carta aos meus olhos, me lembro de ter pensado por traz de meu sorriso gentil: " - eu só queria ter ficado sozinho em paz."
Ela complementou: " - Ele me deixou isso no dia em que morreu."
As dobras mostravam que aquele papel - na verdade uma carta datilografada - tinha sido cuidadosamente dobrado e guardado. Li a carta em silêncio. Nela estava escrito:
Tentei usar ao máximo meu auto-controle, minhas expressões pré-fabricadas, minha calma e sensatez aparente - tão familiar à todos que me conhecem. Mas não consegui. Comecei a dobrar a carta, mas a entreguei antes de terminar, enquanto ainda ouvi a simpática velhinha dizer com uma serenidade ultrajante: "Ele pediu. Eu faço pra me lembrar!"
Eu não aguentei. Desmoronei como não me lembro ter acontecido antes. A velhinha pôs a mão em meu ombro e disse: " - Não chore! Está tudo bem!"
Eu estava em pânico por ter perdido o controle. Envergonhado por estar diante de alguém daquela forma, ali, em uma praça pública. Me levantei, agradeci rapidamente tentando me recompor, peguei a rosa - sim, me lembrei de pegar a rosa - e parti andando rapidamente e respirando forte pra retomar a serenidade ensaiada durante anos.
Não voltei pro trabalho naquele dia. E intimamente desejei que o episódio se esvaísse com o tempo de minha memória. Cheguei em casa, tomei um longo banho com a cabeça pensando um milhão de coisas ao mesmo tempo - metade delas perguntava o que havia de errado comigo; a outra metade pedia para esquecer tudo aquilo rapidamente. O coração doía! Mas o episódio não havia terminado ainda.
As pessoas dizem que minha serenidade e meu bom senso são incomuns. Saí do banho bem melhor do que entrei. Me acostumei bem cedo na vida a deixar as coisas pra trás. Após alguns minutos habituais de contemplação do nada em minha cama, me levantei e fui levar a vida adiante. encontrei a rosa onde havia deixado - sobres mesa. Decidi colocá-la em um vaso com água, assim poderia vê-la definhar dia após dia e morrer, e com ela, a lembrança daquela tarde. Percebi então que não haviam espinhos na rosa e que ela havia sido cuidadosamente embalada com um papel laminado roxo e fita adesiva. Ao retirar a embalagem, com alguma dificuldade, encontrei um papel branco que também envolvia a rosa. Um suspiro e as batidas de meu coração se tornaram mais fortes. Ao abrir o papel encontrei nada mais do que uma cópia da carta que havia lido na praça algumas horas antes. Sozinho em casa eu não preciso de disfarces. Chorei um pouco por muito tempo - creio que passei o resto do dia olhando pra carta. Não me lembro de ter colocado aquela rosa em um vaso com água.
Não voltei a caminhar por aquela praça novamente, mas quando passo por ela, sempre olho procurando pela velhinha que nem sei o nome. Nunca mais a vi.
Não sei o significado disso tudo - se é que existe algum -, mas com frequência releio a carta e revivo aquela tarde, sem pânico ou disfarces.
Não sei porque razão o faço.
Talvez seja porque a vida é engraçada:
Às vezes choro, mas só um pouco.
E às vezes... só às vezes... sinto vontade de comprar rosas!
As confusões de minha cabeça me afastavam mais e mais das pessoas. Decidi andar sozinho depois do almoço. Por fim sentei-me no banco da praça. Todos os dias pela manhã e no final da tarde passava por ali no caminho entre minha casa e o trabalho, mas nunca havia parado.
Fiquei ali olhando as pessoas sem pensar em nada. Apenas olhando, quando uma das sombras que acompanhava com minha mente vazia tomou forma. Era uma senhora, elegantemente vestida para aquela tarde acinzentada e fria. Ela tinha algumas flores nas mãos - rosas vermelhas e brancas. Ao observá-la por alguns minutos, entendi que, com muita simpatia e cuidado, as flores eram oferecidas a pessoas que a velhinha escolhia ao acaso enquanto caminhava lentamente. A simpatia, o sorriso e a gentileza daquele gesto me ofendiam - me agrediam inexplicavelmente. Dirigi meus olhos pra outro lado e sem grandes raciocínios filosóficos minha cabeça estava vazia novamente, aproveitando os poucos minutos que me restavam antes de voltar ao trabalho.
Esse estado de letargia me tira a noção de tempo e espaço, de modo que só percebi a voz que me chamava quando não havia mais chance de me esquivar.
" - Moço, posso lhe oferecer uma rosa?"
Para ganhar tempo e ajustar minhas reações, sorri levemente e me desculpei, como se não tivesse escutado - uma reação calculada que utilizo há anos com frequência, simplesmente pra ganhar tempo de resposta em situações inesperadas. Então ela repetiu:
" - Posso lhe oferecer uma flor?"
Nos minutos anteriores quando a observava, notei que as pessoas reagiam de formas variadas, desde a surpresa agradável até uma indiferença quase contrangedora. Apesar de minha aversão às pessoas, sou conhecido por ser cordial e educado, e não quis parecer indiferente, por mais que aquele ato fosse, não só indiferente, mas incômodo.
" - Muito obrigado. A senhora é muito gentil" disse eu com um sorriso. As pessoas também dizem que tenho um sorriso muito bonito e fácil. Aprendi a usá-lo convenientemente - não sei ao certo se por conveniência ou vaidade. Não importa!
Ela agradeceu enquanto retomava lentamente sua caminhada, quando eu - talvez por vaidade, talvez pela culpa de receber tanta gentileza sem nada oferecer, perguntei:
" - Existe um por quê dessas rosas? Um significado?"
Ela respondeu vagarosamente: " - Apenas um pedido, uma lembrança."
Sorri e retruquei em tom de admiração: "Que bonito! A senhora faz isso há muito tempo?"
E ela então, naturalmente, deu uma resposta que mudou completamente os rumos daquela tarde vazia.
Ela respondeu: " - Há quinze anos." - e após uma pausa reflexiva de alguns segundos completou, sorrindo suavemente: " - quinze anos, quatro meses e vinte e três dias".
A primeira coisa que me passou pela cabeça foi arrependimento por ter iniciado aquele diálogo. Eu não tinha gestos, sorrisos ou expressões ensaiadas pra essa situação. Então apenas repeti balançando a cabeça positivamente, imagino eu, com cara de idiota: " - Que bonito!"
E então ela tomou a frente do diálogo, dizendo: " - A vida é engraçada: às vezes ela nos dá coisas pra que a gente aprenda; às vezes nós repetimos a mesma coisa pra tentar aprender!" E me perguntou: " - Posso lhe mostrar uma coisa?" Após a pergunta, assumiu uma imobilidade assustadora esperando uma resposta. Eu queria dizer não, mas não havia a menor possibilidade de fazê-lo. Então, recobrei o velho sorriso sutil meticulosamente ensaiado pra situações constrangedoras e disse: " - Claro."
Ela pôs as poucas rosas que lhe restavam sobre o banco e sentou-se. Abriu a bolsa. Abriu um pequeno bolso na lateral interna, e tirou um plástico como o que se usa pra guardar documentos. De dentro desse plástico tirou um papel e começou a desdobrá-lo enquanto falava comigo. Nesse momento, meu pânico não estava mais ali. Ela disse: " - Eu perdi uma pessoa muito querida..., na verdade, todos nós perdemos pessoas queridas - faz parte da vida. Mas essa pessoa, meu marido, se foi numa situação muito diferente."
Ela continuou: " - Hoje seria o nosso aniversário de casamento - 47 anos. Mas ele se foi... e me deixou isso. Pode ler se quiser. Eu ainda tenho essa máquina."
Peguei aquele papel em pânico novamente. Eu já conhecia aquele tipo de situação. Acontece quando você vai se deparar com uma lição de vida que te quebra ao meio e te mostra coisas que você não quer ver. Às vezes, coisas que você não está preparado pra ver. Naquele segundo em que trazia a carta aos meus olhos, me lembro de ter pensado por traz de meu sorriso gentil: " - eu só queria ter ficado sozinho em paz."
Ela complementou: " - Ele me deixou isso no dia em que morreu."
As dobras mostravam que aquele papel - na verdade uma carta datilografada - tinha sido cuidadosamente dobrado e guardado. Li a carta em silêncio. Nela estava escrito:
"Este corpo não sou eu!
A partir de hoje, eu estarei em algum outro lugar... ...estarei por aí!!
Olhando esse corpo agora, nenhum de vocês é capaz de me ver: ele é frágil, ele é feio, ele é frio!
Nele não existe mais a poesia que pautou minha vida por todos os lugares onde passei - a poesia que em algum momento, de alguma forma, tocou alguns de vocês!
Essa poesia continua comigo e assim será pra sempre!
Esse corpo acabou, e como tal deveria voltar pro lugar de onde veio: para a terra, para as plantas, flores, frutos! Mas as leis dos homens exigem uma caixa - um caixão. Espero que seja o mais simples e barato. Se queimado, lancem as cinzas desse corpo por aí - casualmente por aí, onde for mais fácil e incomodar menos. Se enterrado, que seja em uma vala simples qualquer, como exige a lei, identificada apenas por uma pedra - a mais simples e barata! Nessa pedra, que seja escrito de forma imprecisa e efêmera - como esse corpo - meu nome, as datas de nascimento e morte, e se possível a frase:
"Este corpo não sou eu! A partir de hoje, eu estarei em algum outro lugar... ...estarei por aí!!"
Por favor, não visitem esse túmulo de tempos e tempos, nem tampouco tragam flores a esse corpo que não sou eu. Ofereçam à mim onde quer que vocês estejam, um sorriso ao vento, um pôr de sol, uma canção, e aos mais ousados, eu pediria que em meu nome - sem que seja necessário dizer meu nome, por favor - ofereçam flores a um desconhecido, pela rua! Corpos ainda vivos que precisam muito mais de flores do que esse corpo onde não estou mais.
Eu estou na poesia das flores."Este corpo não sou eu! A partir de hoje, eu estarei em algum outro lugar... ...estarei por aí!!"
Um beijo à todos. E saiam logo daqui!! Aqui não há mais vida!! A vida de vocês está lá fora e o tempo passa rápido!
Vamos saiam. Vocês ainda têm muito à fazer e muito à aprender!!!
Vamos, acabem com isso e vivam, beijem muito, amém muito, sorriam o máximo que puderem, chorem quando for preciso, ajudem outras pessoas e... ...aos mais ousados, dêem flores à desconhecidos! Talvez uma flor desconhecida em minhas mãos, em um dos caminhos por onde passei tivesse feito toda diferença!
Eu amo vocês! Assim como amei minha vida - que continua agora por outras veredas!
Até sempre!!!"
Tentei usar ao máximo meu auto-controle, minhas expressões pré-fabricadas, minha calma e sensatez aparente - tão familiar à todos que me conhecem. Mas não consegui. Comecei a dobrar a carta, mas a entreguei antes de terminar, enquanto ainda ouvi a simpática velhinha dizer com uma serenidade ultrajante: "Ele pediu. Eu faço pra me lembrar!"
Eu não aguentei. Desmoronei como não me lembro ter acontecido antes. A velhinha pôs a mão em meu ombro e disse: " - Não chore! Está tudo bem!"
Eu estava em pânico por ter perdido o controle. Envergonhado por estar diante de alguém daquela forma, ali, em uma praça pública. Me levantei, agradeci rapidamente tentando me recompor, peguei a rosa - sim, me lembrei de pegar a rosa - e parti andando rapidamente e respirando forte pra retomar a serenidade ensaiada durante anos.
Não voltei pro trabalho naquele dia. E intimamente desejei que o episódio se esvaísse com o tempo de minha memória. Cheguei em casa, tomei um longo banho com a cabeça pensando um milhão de coisas ao mesmo tempo - metade delas perguntava o que havia de errado comigo; a outra metade pedia para esquecer tudo aquilo rapidamente. O coração doía! Mas o episódio não havia terminado ainda.
As pessoas dizem que minha serenidade e meu bom senso são incomuns. Saí do banho bem melhor do que entrei. Me acostumei bem cedo na vida a deixar as coisas pra trás. Após alguns minutos habituais de contemplação do nada em minha cama, me levantei e fui levar a vida adiante. encontrei a rosa onde havia deixado - sobres mesa. Decidi colocá-la em um vaso com água, assim poderia vê-la definhar dia após dia e morrer, e com ela, a lembrança daquela tarde. Percebi então que não haviam espinhos na rosa e que ela havia sido cuidadosamente embalada com um papel laminado roxo e fita adesiva. Ao retirar a embalagem, com alguma dificuldade, encontrei um papel branco que também envolvia a rosa. Um suspiro e as batidas de meu coração se tornaram mais fortes. Ao abrir o papel encontrei nada mais do que uma cópia da carta que havia lido na praça algumas horas antes. Sozinho em casa eu não preciso de disfarces. Chorei um pouco por muito tempo - creio que passei o resto do dia olhando pra carta. Não me lembro de ter colocado aquela rosa em um vaso com água.
Não voltei a caminhar por aquela praça novamente, mas quando passo por ela, sempre olho procurando pela velhinha que nem sei o nome. Nunca mais a vi.
Não sei o significado disso tudo - se é que existe algum -, mas com frequência releio a carta e revivo aquela tarde, sem pânico ou disfarces.
Não sei porque razão o faço.
Talvez seja porque a vida é engraçada:
"às vezes ela nos dá coisas pra que a gente aprenda; enquanto às vezes nós repetimos a mesma coisa pra tentar aprender com ela!"
Às vezes choro, mas só um pouco.
E às vezes... só às vezes... sinto vontade de comprar rosas!
to RW
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